O Bonsai em Evolução

Eduardo Campolina

 

Evolução: Desenvolvimento gradual; movimento progressivo; transformação.

Tudo no universo tem como base o desenvolvimento e evolução, mas nada ocorre aos saltos. A evolução é gradativa, cada melhoria proporciona condições a mais um passo no processo.

Indubitavelmente, é o conceito mais intimamente relacionado à Arte Bonsai, sobre todos os aspectos. É a base conceitual, pré-requisito e objetivo, agente e resultante.

Em nenhuma outra arte existe tal interdependência na evolução da obra e do criador.

Obra em constante mutação, nunca terminada, obriga um grau de envolvimento e atenção único por parte do artista. O Bonsai precisa evoluir como ser vivo e como expressão artística durante toda a sua existência, forçando a evolução do seu criador nas mesmas bases, como indivíduo e como artista. E quanto maior a evolução do artista, maior a evolução da obra, e assim sucessivamente.

Todas as formas de expressão artísticas orientais possuem como objetivo principal a evolução intelectual e  espiritual do indivíduo. Através da arte, buscam a elevação e o auto-conhecimento. Pela representação e compreensão dos elementos naturais e das forças envolvidas no seu funcionamento, encontram elementos de aprendizado para o crescimento individual.  

O Bonsai carrega uma enorme quantidade de simbolismos e ensinamentos.  Enquanto árvore representa vigor, perseverança, resistência, força e ao mesmo tempo serenidade, tolerância, flexibilidade, adaptabilidade. Seu cultivo demanda concentração, conhecimento, experiência, habilidade, paciência, respeito e disciplina. Sua apreciação individualmente ou em conjunto com outros elementos artísticos relacionados, proporciona beleza e tranqüilidade, estimulando à meditação.

Nos últimos anos, observamos como fenômeno evolutivo da arte em todo o mundo, uma preponderância dos elementos técnicos no cultivo do bonsai. A busca pela naturalidade representativa deu lugar à criatividade artística produzindo obras que, apesar da beleza inconteste, demonstram claramente a interferência humana. A aplicação de técnicas cada vez mais elaboradas e o refinamento excessivo resultam muitas vezes numa árvore idealizada, não representando a real beleza dos exemplares naturais. Isto não quer dizer que para que pareça natural um bonsai deva crescer com um mínimo de interferência como preconizam alguns sob o pretexto da naturalidade, mas toda interferência realizada e indispensável no cultivo de exemplares de qualidade superior, deveria ter ao máximo uma aparência natural.

Felizmente, mais recentemente alguns artistas têm procurado retornar à essência original da arte. Os bonsai continuam estilizados, mas de forma mais natural especialmente no refinamento da copa. Novos artistas, principalmente de Taiwan e da Indonésia, mesclam a orientação filosófica e espiritual do Penjing, com o rebuscamento estético moderno do Bonsai, produzindo obras de extrema beleza e naturalidade.

No Brasil, notamos uma clara melhoria técnica nos exemplares trabalhados. Gradativamente tomamos consciência de que o Bonsai representa árvores únicas de beleza ímpar e não qualquer árvore comum de qualquer esquina. Entretanto nota-se ainda uma inquietante e prematura preocupação em se criar uma identidade no bonsai nacional. É preciso dar tempo à evolução natural do artista nacional. 

Até por questões culturais, poucos se preocupam com o auto-conhecimento através do bonsai, preocupando-se apenas com a técnica pura. Como já descrito, o Bonsai provê e depende do desenvolvimento do artista como tal e como indivíduo.

O Bonsai no Brasil evoluirá quando seu objetivo deixar de ser o abastecimento do ego individual e tornar-se um meio para a evolução dos indivíduos.


 

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