Estilizando um Junípero

Texto e fotos: Eduardo Campolina

 


Um dos principais problemas encontrados no Brasil no cultivo do Bonsai é a obtenção de material bruto de qualidade, especialmente quando o objetivo é um uma estilização que proporcione um trabalho de qualidade em curto espaço de tempo.


O material aqui utilizado, relativamente fácil de ser obtido, tem seu cultivo orientado para o Bonsai, possuindo galhos com alguma orientação, folhagem podada compacta e um primeiro trabalho de raízes. Por ser obtido por alporquia, apresenta também uma boa distribuição de raízes, considerando a espécie. Trata-se portanto um bom material para a formação de Bonsai pequenos a médios.

O junípero é uma espécie popular no Bonsai apresentando trabalhos de grande beleza, caracterizados pelos contrastes entre a folhagem verde escura, casca avermelhada e a madeira branca dos jins e shari. Dentre suas  características apresenta também grande flexibilidade de galhos e troncos, resistindo bem a flexões e torções bastante pronunciadas.


Este exemplar possuia como ponto positivo uma boa folhagem bastante compacta e saudável.
Como pontos negativos, temos o tronco proporcionalmente fino para a altura da árvore, não apresentando qualquer movimento além da inclinação lateral desde a base. Os galhos são poucos e mal distribuídos. 

Após o primeiro galho existe um espaço relativamente longo sem novos galhos e então o segundo e terceiro galhos são quase paralelos. Além disso o segundo galho tem praticamente o mesmo diâmetro do primeiro galho e o terceiro tem um terço do segundo. Qualquer estilização aproveitando os galhos superiores resultaria em uma composição pouco natural.

Optamos então por reduzir a altura, utilizando para a composição apenas o primeiro galho.

Toda a parte superior da copa foi eliminada, deixando apenas uma parte do tronco para ser esculpida como Jin.

 

Alterando o ângulo em que é plantado, acentuamos a inclinação inicial. O primeiro galho é então aramado, levantado e torcido em leve espiral, com o novo ápice posicionado no centro de gravidade da árvore. Desta forma, criamos um tronco principal equilibrado com boa conicidade e movimento e, ao reduzirmos a altura, tornamos o tronco proporcionalmente mais grosso, criando um aspecto de mais idade.

Passamos então para a escolha dos galhos com base na origem e qualidade da folhagem. Os galhos serão aramados e orientados para baixo, com a folhagem podada, aramada e orientada. Posicionados desta maneira, além de aumentar o volume da copa, adquirem também aspecto de idade avançada.




A escolha do primeiro galho (sashieda) tem especial importância pois é ele que define todo o movimento da árvore.

Num primeiro momento foi utilizado o primeiro galho a direita para que a copa envolvesse o forte jin, aumentando o contraste. Entretanto esta escolha mostrou-se equivocada, pois além de esconder a curva do tronco, desbalanceava todo o movimento da árvore.

O sashieda à esquerda proporcionou equilíbrio ao movimento do tronco, e consequentemente, à árvore como um todo. Terminada a copa, foi criado um shari, a partir do jin, até o solo.

Lado Esquerdo

Lado Direito


Visto de trás



Finalizando a copa, procedemos a aramagem fina dos galhos secundários e terciários, com a arientação cuidadosa da folhagem.

Como a árvore apresentava-se vigorosa e a aramagem  não apresentou grande impacto, optamos por efetuar o transplante já para um vaso de Bonsai.



Com o crescimento da copa nos próximos meses e a troca do vaso por um mais adequado ao estilo e o tamanho da árvore no próximo transplante, todo o conjunto ficará mais harmonioso.

 

 

Além da técnica 

Deixando de lado os conceitos meramente técnicos, vamos analisar os motivos da decisão de realizar semelhante transformação.

Antes do trabalho, o junípero possuía realmente inúmeras qualidades, ressaltando a folhagem saudável e compacta de grande efeito visual. Com seus 40 cm de altura era chamativo e atraente. Analisando porém com mais atenção, sua forma comum não remete à imagem de uma árvore marcada pelos anos e pelas adversidades. O formato do tronco reto e cilíndrico está presente no máximo em jovens árvores no início de seu desenvolvimento. A copa ampla contrasta com o tronco fino e contribui para a sensação de juventude. A grande assimetria na origem dos galhos e a presença de galhos grossos próximos ao ápice e orientados para baixo, tornam sua estrutura  pouco natural e desagradável. 

Certamente o bonsai não busca representar árvores comuns ou com estruturação e desenvolvimento matemático e perfeitamente simétrico. O movimento simétrico é mais monótono e pouco natural que sua ausência. Por outro lado, copas retas ou perfeitamente triangulares só são vistas quando há interferência humana. 

A árvore bonsai representa a vitória de um guerreiro sobre o tempo e as adversidades. Quando presente, o movimento deve ser harmônico e natural, nunca simétrico. A copa perfeita à primeira vista, é formada pelo conjunto complementar de pequenas imperfeições. A beleza reside na assimetria balanceada e original. As marcas do tempo devem ser evidentes, mas sem perder a naturalidade. 

O bonsai precisa contar uma história. A sua tranquilidade atual foi conseguida a duras penas, não apenas pela ação de elementos adversos, mas também pelo simples, porém implacável efeito do passar dos anos. 

O artista precisa buscar esta história com imaginação e decisão, independente da utilização de técnicas mais ou menos radicais.

O tempo é um aliado com certeza, e a natureza sempre sabe o que faz, mas seus efeitos são maiores em nós que em nossas árvores e se sentarmos e esperarmos pela sua ajuda, poderemos não chegar a ver o resultado de nosso “esforço”.

 

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