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Jin,
Shari e Uro: testemunhas de uma existência.
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Os trabalhos de madeira
morta têm como objetivo principal adicionar características de idade ao
bonsai. Árvores centenárias normalmente tem marcas e cicatrizes das
adversidades a que foram submetidas durante a sua longa existência,
especialmente nas espécies que originalmente crescem em regiões de
extremos climáticos.
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Ventos fortes e
constantes, grandes nevascas, baixa umidade, solo pobre provocam um
crescimento sofrido, com perda de partes da árvore à medida que os anos
avançam. Em algumas regiões, as ocorrências periódicas de anos mais
difíceis causam extensas lesões que a árvore insiste em recuperar.
Outras vezes abandona a área fortemente lesada e toma um caminho um pouco
menos penoso para continuar o crescimento.
Toda
esta variabilidade de condições, com intensidade e ocorrência também
variáveis, provocam áreas mortas e cicatrizes, com formas e texturas
diversas que, apesar de serem testemunhas de um grande sofrimento, nos
impressionam pela grande beleza e pela sensação de grande vigor na luta
constante em manter-se viva.
A
beleza destas marcas reside em sua relativa irregularidade e casualidade
que derivam, além da variedade de situações adversas, da natureza da
formação da madeira.
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Os
ciclos climáticos anuais promovem diferentes taxas decrescimento. Desta
forma a madeira formada em um período de crescimento acelerado tem
estrutura e dureza diferentes da formada em um período de crescimento
mais lento. Quando uma área morre e o cerne fica exposto, a madeira se
fragmenta e degrada de forma irregular, tanto pela variabilidade das ações
climáticas tanto pelas diferenças em sua resistência.
Para
reproduzirmos estas “cicatrizes” em nossos bonsai, adicionando desta
forma a aparência de mais idade, precisamos agir na madeira criando padrões
irregulares de desgaste, mas conhecendo e respeitando as características
da madeira. Devemos observar e agir nos sulcos e nas áreas de
surgimento de novos galhos de formas diferentes, criando uma textura
evidente, mas suave.
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Cada
espécie de árvore tem uma madeira de dureza e velocidade de
degradação diferente. Assim é mais fácil de se encontrar NA NATUREZA,
este ou aquele tipo de madeira morta, nesta ou naquela espécie,
especialmente nas de clima tropical.
Mas
este fato não deve ser tomado como proibitivo na realização de
trabalhos em madeira morta em qualquer espécie de árvore utilizada no bonsai, uma vez que estamos representando árvores centenárias e muitas
vezes gigantescas, em tamanho reduzido.
Um Jin apical na natureza de
alguns metros de diâmetro ou um galho da grossura de um tórax de um
homem levam décadas para desaparecer mesmo nas madeiras de degradação
mais rápida como a da maioria das coníferas.
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Mas
se a madeira das coníferas tem degradação rápida, por quê os jin e
shari são mais comumente encontrados e utilizados nestas espécies,
especialmente os Juniperus? As razões
são várias:
As
coníferas ocorrem naturalmente em regiões de clima adverso, estando
portanto mais suscetíveis a perdas de galhos e grandes áreas do tronco.
Nestas
áreas, a degradação da parte morta ocorre pela ação de ventos fortes
que lançam partículas na madeira exposta, causando sua lenta esfoliação.
Entretanto, esta mesma ação que desgasta também
protege, mantendo a madeira limpa e impedindo uma ação mais efetiva de
microorganismos que provocariam sua degradação mais rápida. Por este
motivo, a madeira dos maravilhosos Juníperus oriundos de yamadori,
precisa ser cuidada para que dure no bonsai tanto quanto duraria na
natureza, na sua região original de ocorrência.
Em
outra situação, poderemos algumas vezes utilizar uma espécie de folha
menor para representar uma árvore de uma espécie semelhante de folha
maior, para um efeito mais natural. Poderá ser preciso
adicionar características de madeira morta comuns na espécie que
representamos, mas menos comuns na espécie cultivada. Explícito ou não
a pouca ocorrência destas características em determinada espécie não
deve ser utilizada como empecilho na sua representação em nossos bonsai,
desde que utilizadas com bom senso e condizentes com o estilo escolhido.
O
mais importante é o conhecimento do comportamento da madeira para que o
resultado final passe a impressão de uma ocorrência natural.
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O bonsai nos conta uma história: Juniperus rígida em estilo fukinagashi
ou varrido pelo vento.
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“A árvore
cresce onde existe um vento relativamente forte e constante que sopra
durante todo o ano em uma única direção. Robusta, durante alguns anos
consegue crescer razoavelmente ereta e enviar galhos em todas as direções
mas os que tentam crescer contra o vento desenvolvem-se pouco. Em um
determinado ano, uma forte tempestade quase arranca a árvore do solo. As
raízes de um lado ficam expostas provocando a morte de toda a área
correspondente.
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Com o passar dos
anos o vento lança detritos, desgastando e polindo. São
formados orifícios e grandes sulcos sinuosos, polidos mas levemente
texturizados pelo desgaste irregular dos pequenos veios.
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A
madeira ressecada trinca seguindo o mesmo padrão. O aspecto é fantástico,
especialmente pelo contraste criado com a parte viva que teimosamente
insiste em crescer.”
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Mesmo tratanto-se de uma estória, pois o
bonsai foi
artificial e integramente criado pelas mãos do artista Fernando Magalhães,
poderia facilmente ser uma história real de uma heróica árvore centenária,
como muitas que crescem em condições adversas.
Muitas
vezes de forma inconsciente, é pensando em contar uma história verossímil
que o artista conseguirá criar artificialmente belos trabalhos de
madeira morta de aspecto extremamente natural. Logicamente o tempo é um
excelente aliado, mas a utilização moderada dos agentes de preservação,
permitindo alguma ação de degradação, acelera a formação dos
aspectos sutis de envelhecimento que promovem uma maior aparência de
naturalidade no trabalho final.
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Nesta
outra composição a história é um pouco diferente:
“Uma
árvore centenária que crescia numa condição razoável sofreu em uma situação extrema incomum, causada talvez por um período anormal de
escassez de água, nevasca ou mesmo doença.
Quase toda a árvore foi
perdida. Um galho entretanto, resistiu e ao longo dos anos formou uma nova
copa, que novamente mostra sinais de que os anos já passaram.”
Em
conformidade com as condições em que cresce, a degradação da madeira
ocorre principalmente por agentes mais agressivos como microorganismos e
insetos.
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Desta forma o desgaste é mais marcado, formando sulcos profundos
e cantos mais vivos. Não existe polimento, a madeira exposta não é tão
branca e a texturização é mais marcada.
Neste
bonsai reestilizado por David Yamamoto, o trabalho recente ainda precisa
de alguma ação de suavização tanto realizada pelo artista quanto pela
ação natural.
A madeira secará e trincará, fragmentos serão removidos
e as arestas ficarão mais suaves, criando a aparência de ação do tempo.
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Uma
das espécies nativas em que é maior a ocorrência natural de madeira morta, esta
árvore, que pode crescer como trepadeira buscando apoio nas fazes iniciais de
crescimento, apresenta naturalmente grandes ocos (uro) em exemplares de
todas as idades.
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Por possuir uma madeira muito macia e de apodrecimento rápido, tem o
trabalho de uro combatido por alguns bonsaístas baseados nesta característica,
que contraditoriamente é justamente a que permite a ocorrência do uro.
Foi determinado
através de pesquisas que a Bougainvillea
secreta uma substância
protetora que impede o apodrecimento da área morta a uma distância segura da
parte viva, não permitindo o comprometimento da estrutura da árvore.
Logicamente, em nossos bonsai precisamos proteger adequadamente a madeira,
pois a exposição a agentes aceleradores, especialmente a água, é muito
maior que em uma condição natural.
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Este bonsai do
artista Fernando Magalhães, tem este grande uro imutável a pelo menos 8
anos. A madeira foi metodicamente tratada durante os primeiros anos mas já
faz algum tempo que nenhum produto é utilizado, proporcionando este
aspecto natural.
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Outra
nativa com grande aptidão para trabalhos de madeira morta, o Pitecelobium
produz naturalmete grandes jin e shari, que contrastam com a maravilhosa
madeira.
Crescendo
em condições adversas, freqüentemente perde grandes áreas de tronco e
galhos. Ao contrário da Bougainvillea, sua madeira bastante
resistente não
apresenta grandes problemas de manutenção
no bonsai.
Neste caso uma madeira menos tratada e com menos sinais
da ação
de agentes de degradação, confere uma aparência mais natural à composição.
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Observando sempre
a obtenção da naturalidade na representação artística, os elementos
de jin, shari e uro, serão excelentes aliados na caracterização de
idade avançada no trabalho do bonsai, inclusive em várias de nossas
nativas.
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